quarta-feira, 5 de agosto de 2009

DESCOBRI "A MAIS LOURA DE LISBOA" NA AVE AZUL

2006-09-25

a mais loura de lisboa (conto lírico de Isabel Mendes Ferreira)


"é tudo um sonho vago de luar."
Teixeira de Pascoaes

uma estrada longa. povoada de fantasmas. sebes altas como a memória dos ingloriosos dias de fome e encantamentos. uma vontade de ser mais que um estivador do trigo ressequido. uma sede de letras e sílabas. o medo do quarto escuro onde o pão era luz escassa e lunar, as algibeiras cheias de recados de água. cartas de recomendação para a cidade. para um balcão de perfumes e vernizes.

o Diogo lá ia. pés apressados rumo a sorte vencida no entanto mais verde que um carro de bois a ilharga. longa e suavemente despedia-se da montanha. da neve e das papoilas. um olhar de musgo incendiava as pedras que agora Ihe apeteciam mais que nunca. mas tinha de ir.
condenado ao futuro vestira o melhor. o primeiro. o único fato. como se a ironia da vida fosse um corte de fazenda grosseira e cinzenta. parda como a alma dos que sonham com a lua.

aproximava-se da estação como um bandido do pri meiro assalto. a mãe era uma saia escura ao canto da cozinha. os irmãos mondavam a esperança de terem a sorte do Diogo. e entretanto iam jogando à cabra-cega com as ovelhas magras e melancólicas. o pai era uma sombra na esquina e um trago de aguardente na taberna do tio palmito.

ah aquele filho ia longe. era mesmo a carne da sua carne. e se não fosse doutor havia de casar com a loura mais loura de lisboa. sim que lá na capital as mulheres eram todas louras e perfumadas e tinham pernas brancas como a neve da serra.
ah aquele seu filho era mesmo igual a ele ditoso pai de quem parte para a cidade. e enquanto estes sonhos se bebiam na taberna do tio palmito o Diogo bebia o último cálice da terra à procura duma razão qualquer para ir mugir as vacas tristes e estéreis. de súbito para acabar com o desespero que só os escravos conhecem. um apito diabólico encheu o ar de desafio e como um touro selvagem o comboio irrompeu no silêncio das ervas.

o Diogo espantado e cansado de tanto medo e simultâneo desejo tomou de galope a terceira classe daquele monstro a arder Como um vulcão prestes a inundar a aldeia. não espreitou sequer o verde nem o alto das escarpas. Não disse adeus às camélias e esqueceu as rugas que envelheciam o rosto torturado da mãe. sentou-se ao contrário. no sentido inverso de lisboa num repentino receio de todas as mulheres louras e perfumadas. não chorou sequer. os Diogos não choram quando têm de fingir de vencedores.
e o comboio corria. voava. dir-se-ia comandado pelo de sejo do pai que na taberna do tio palmito pedia mais um copo pela viagem triunfal do filho igual a ele.

Diogo chega a lisboa. gente. tanta gente. não sabia que o mundo e aquilo era com certeza o mundo. era tão cheio de gente. de carros que não eram de bois. de rapazes elegantes, de malas. muitas malas. seriam tesouros. cebolas ou cadeados? e sobretudo mu lheres. mulheres de olhos verdes. lá na aldeia todas tinham olhos de sofrimento e por isso castanhos ou negros de desencanto.
parado como um polícia de sentinela Diogo duvidava do que lhe parecia ser o céu descido à terra, mar. era o mar. ninguém lhe tinha falado do mar. nem a tia Amélia que era tão sua amiga e sabia coisas insuspeitadas na terra da neve e das azedas em flor.

lisboa tinha o mar mesmo ali. soberbo e submisso em ondas de volúpia. em carradas de peixes luminosos e traineiras brancas e azuis com nomes em letras grandes e vermelhas. lembrou-se da fogueira dos ciganos. do mistério rubro que andava à solta pelas noites de agosto.

Diogo estava apaixonado. siderado. em êxtase. o mar era a sua primeira mulher. loura e perfumada. entregue sem reservas como um corpo sobre a erva. a erva que ele trazia guardada nos rins em noites de adolescente ansioso.
lenta e muito seguramente dirige-se ao cais. embriagado de limos e tainhas. o peito solto nas mãos apelativas. o corpo djlacerado de desejo chega devagar à boca das ondas. às ancas do céu. toca-lhes. atinge os lábios da água sôfrego e altivo. mancebo de veludo e cítaras. Diogo sente que dentro dele o vulcão vai explodir e lembra o comboio invadindo a estação. sabe que aquela mulher e a única mulher da sua vida. acesa. livre. pouca demais para tanto desejo. comove-se com a ternura que ela derrama no seu corpo. ternura de mulher primeira que se lhe oferece exigindo apenas o corpo que ele arde por lhe oferecer.
e Diogo nao aguentando mais aquele ardor na pele eriçada de antecipação do prazer. abate-se másculo e gigante sobre aquela mulher loura. perfumada. mulher de pernas brancas e cabelos de corais e con chas e seixos e diamantes e carpas.

uma semana depois o pai de Diogo bebe na taberna do tio palmito pela alma daquele filho tão igual a ele. assim que chegou a lisboa casou-se com a mu lher mais linda que lisboa inteira namorava. mas tinha sido o seu Diogo que a tinha cativado.

e a mãe ao canto da cozinha bordava lençóis de linho que pelo entardecer adentro ia depositar na arca inundada de limos e búzios de todas as cores.
(a mais loura de lisboa, Lisboa, Difel, 1984. O código óptico-grafemático foi alterado.)


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