sexta-feira, 30 de outubro de 2009

MAGNIFICAT

Foto pessoal: Mosteiro de San Payo, Minho

MAGNIFICAT

"A vida é variedade, loucura, um incêndio
multicolor, iluminando as concavidades do Infinito,
onde os Deuses que eram sombra, se vestem
de claridades vivas e carnais."

Teixeira de Pascoaes

a manhã começou a crescer. fluida. devagar. primeiro os beijo de António Jorge. as nuvens. as plantas. os dedos imóveis pousados na pele. na memória. o sangue ainda barco atracado no porto da saudade. o desejo incipiente. um pássaro na garganta. que tentava levantar voo. uma claridade imensa. de neve. fora da janela. a cidade a doer. como um cavalo ferido. um tiro nos olhos. andaimes de veludo que subiam para a voz obrigatoriamente calada. presa. vítima das portas fechadas. a as palavras de António Jorge.
o telefone. o salva-vidas contra a solidão.
Isa não sabe o número. quem se lembra de números. punhais. códigos de morte. quando o futuro é uma bolha de ácido enchendo a nuca de pontadas de medo. micro-memórias ardendo debaixo das veias. no vértice sinistro onde a carne é mais frágil e o silêncio um poço de asas rasgadas...?

a manhã desmanchava-se nos lençóis. na indolência das horas. o Rui vinha buscá-la para almoçar. um passeio ao longo do mar. pés na areia. pés no ar. o vestido rosa-doce. o cabelo solto. os lábios inundados de sorriso inocente. e os olhos de António Jorge ao lado do espelho.
Isa começou o ritual de ser mulher. secreta e desejada. inacessível porém. o banho. baptismo de sais e transparências. o perfume suave. nos pulsos. nas orelhas pequenas. indecisas borboletas voando à procura de um segredo de cerejas. o anel de ouro. finíssimo elo de um amor macerado. pisado pela solidão intransponível que ao longo dos meses se fora acumulando em mosto demasiado maduro. oleoso. e sentou-se no café que dava para a janela. boca aberta para a rua sempre fria. sempre igual. desde ontem. desde o princípio do medo. e ficou-se à espera do Rui. à espera dos olhos de António Jorge. súbito um galope de campainhas. um tremor de ervas. uma porta que insite em rugir. Isa vai abrir. é o Rui. pergunta-lhe se encontrou o António Jorge. ele não sabe quem é. claro. ninguém sabe quem é o homem que me persegue. a minha sombra recusa-se. pensa ela. mas como o tempo é um rio vamos que se faz tarde. é urgente sair. quebrar a teia cada vez mais forte que à sua volta é um novelo de desejo. um monstro enorme de língua fumegante trepando as coxas numa dança felina. demasiado angustiante.

saíram. sem perguntas. sem respostas para o terrível silêncio que Isa deixava cair a cada passo. num esquecimento total de lugar e momento. o restaurante escolhido ficava a dez metros do mar.
António Jorge não estava lá. nem era suposto estar. a não ser na imaginação ansiosa de Isa que não o conseguia esquecer. e as situações transformavam-se em pó de canela. extâses de limos e barcos que passavam. regatas de sonhos escuros. na sua boca mordente. águia à solta por dentro dos nervos de Isa que nos olhos claros de Rui encontrava a força marítima dos olhos de António Jorge.

algures na areia um homem agarrava uma mulher. dobrava-a pelas ancas num braço de metal fundido. António Jorge o homem vigoroso. e gritou até o mar não ser mais que um pobre afluente dos seus lábios inchados. mordidos pela fome de um homem fantasma no entanto colado às mãos de Isa que dominada por uma fé pagã cortara os pulsos ao desmaiar de prazer naquele enlace e se esquecera completamente do copo que o Rui enchera de vinho. maduro.

instalada a confusão no restaurante veio a conta. era um poema que suspenso de uma nuvem de incenso dizia__________estou contigo meu amor e nesse cálice que bebeste estava o meu sangue___________ Isa sorriu. era domingo de Páscoa. Aleluia! Aleluia!
Hosana... Hosana... meu amor... eis finalmente o meu corpo no teu corpo. Aleluia.

in "a mais loura de lisboa", magnificat, página 138, DIFEL, 1984,
de Isabel Mendes Ferreira


terça-feira, 27 de outubro de 2009

O COLECCIONADOR


O COLECCIONADOR

"... Tudo o que tomba, é asa que se fecha, tudo o que cai, é lágrima..."

Teixeira de Pascoaes


era dia de festa. estávamos todos. nós e os outros. o mar e as gaivotas. alguns barcos e muitas crianças morenas. o sol brilhava nas pedras. as pedras refulgiam o brilho das águas. e de vez em quando um caranguejo desprevenido da memória ancestral dos deuses vinha arranhar os tornozelos leves dum miúdo. operário insano de castelos medievais que a maré insistia em destruir naquele tão peculiar castigo das forças profundas que tem o mar. segredos?
até que chegou o Vítor. mais uma ruiva. sardenta. olhos de algas. curandeiros de qualquer nostalgia. cabelos ao vento. com gotas de suor na testa de boneca de coral.
olá malta. tudo bem? a malta éramos nós. dois poetas mal tratados pelo drama. já não há tragédia. duma consciência perdida entre deus e eros. palavras dispersas nos livros nunca escritos depois do tempo ser maior e mais sereno.
levantámos o rosto melancólicamente. os poetas devem ter um sorriso melancólico mesmo quando estão felizes. o Vítor de ruiva pelas ancas. breves. fracções de luz num sinal de livre trânsito onde ele. automóvel desenfreado. corria à velocidade dum jacto último modelo. sentou-se. calça branca de marujo atracado recentemente. puxou dum cigarro dourado. truque alexandrino? e disse que aquela era a Concha. que tal? e mostrava o orgulho de coleccionador de conchas raras. esta encontrei-a nos mares do sul. bonita não é?
a malta até gosta de conchas. sobretudo daquelas que muito frágeis e delicadamente rosadas se deitam na babugem da caparica e do guincho e nos remetem para a infância de barquinhos de papel. olhou a Concha. aparição dos mares do sul. dali dos lados da malveira.
e sentimos a respiração da serra. o sumo das couves. a polpa dos nabos. as arestas dos grelos. o verde macio das alfaces. o rubor das maçãs maduras. espelhos de faces brilhantes como vulvas ébrias de sol. sedentas de chuva. esperma de mel?
poetas felizes na felicidade amarga dum descontento sempre vivo. sempre estranho e indefendido. unidos na mesma raiva contra os cigarros do Vítor marinheiro de bares e das vielas de nenhuma cidade. de todas as favelas. de nenhum país. de todos os recantos dum vício não assumido. disfarçado de erudição de todos os mundos. enchemos ali mesmo a boca de musgo. a Concha entrou-nos pela garganta____________ aos molhos de salsa picada. em garfadas de terra acabada de lavrar. e com gestos líquidos limpámos a alma nas calças brancas dum Vítor esquecido. deportado para as entranhas duma ilha só de fantasmas e morcegos. barco sem rumo nem camaradas olhava o fundo do mar procurando o tesouro perdido. lançando outras redes. mais fortes que as videiras. desta feita para os lados do nilo. e assim ficámos. felizes e contentes. enquanto a água refulgia nas pedras e o sol brilhava na água e água nascia dos olhos da ruiva que o Vítor trazia pelas ancas.

in "a mais loura de lisboa", o coleccionador, página 107, DIFEL, 1984, de Isabel Mendes Ferreira

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

HOJE Lançamento da INÚTIL Revista / AMANHÃ Lançamento Nº135 da NOVA ÁGUIA em Cascais

Já se pode dizer que foi um SUCESSO.

Gente bonita por todo o lado.

Deixo uma fotografia que mostra a felicidade de Maria Quintans.

Estava linda.

Para a Maria,

mais uma vez, os meus aplausos.

Grande revista.











O mesmo se pode dizer do 135º Lançamento da Revista Nova Águia em Cascais.

A presença de alguns poetas, escritores e leitores da Nova Águia mostrou bem a importância que a revista apresenta para a cultura portuguesa.

O Prof. Renato Epifânio e o Prof. António José Borges apresentaram a NA com elevado sentido de humor.

Obrigada aos amigos de sempre pela cedência das fotografias.





terça-feira, 20 de outubro de 2009

POEMA XXXIII - ENTREGO-ME... IMF em 1982


XXXIII

entrego-me como se fora um livro
indesenhável. um livro de lábios
laranjas entumescidas no labor
dos teus-dentes dedos sempre leves.
sempre leves.
entrego-me bordada
de rigor ou
pontos de malmequer ou
estrelas dum céu de agosto ou
licor de garganta sempre
túrgida e aberta.
tocas-me uma valsa
de ondas largas onde me cortas
em cabelos de água
dizes que o meu corpo é de neve e
bebes dele à procura de nascente.
dentro do meu ventre tudo é turvo e túrgido.
úbere e largo. fruto do teu prazer
que antes de ser raíz foi barco e oceano.

PÁG. 47 in UM NOCTURNO DE BACH E UM RELÂMPAGO NO OLHAR,
de Isabel Mendes Ferreira, Bertrand, 1982


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

É INÚTIL TENTAR ESQUECER ESTE EVENTO. NÃO VAI CONSEGUIR. É INÚTIL.




E AINDA, FRANCISCO JOSÉ VIEGAS MOSTRA O SEU NOVO ROMANCE "O MAR EM CASABLANCA"

Ainda ontem, na CANTINA da Lx Factory, Francisco José Viegas
mostrou ao seu público o novo romance " O Mar em Casablanca".
Estupendo.
A máquina já estava sem bateria, obrigando-me a "roubar" estas imagens



A sua meteorologia atormentada
transforma-se numa metáfora
do destino humano.

Le Monde



O Mar em Casablanca

O novo romance de Francisco José Viegas,

vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE,

2005, com a obra "Longe de Manaus".






O MESTRE LUANDINO É ENCANTADOR


PALAVRAS PARA QUÊ?



Paula Tavares e Cristina Piedade, Gerente Bertrand Roma, organizadora do Evento.


Zeferino Coelho, Editor Caminho, José Luandino Vieira, Paula Tavares, Cristina Piedade


José Luandino Vieira, Paula Tavares




Maria Quintans, Ana Maria Magalhães







Carlos do Carmo entre amigos, para acompanhar o amigo Luandino

Parte da equipa BERTRAND Roma




OBRIGADA CRISTINA PIEDADE, ANFITRIÃ À MEDIDA DO BAIRRO DA AV. DE ROMA.



quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A BERTRAND E A CAMINHO APRESENTAM JOSÉ LUANDINO VIEIRA



O CONVITE É PARA TODOS





Estrada

Luanda Dondo vão,
cento e tal quilômetros
mangas e cajus
marcos brancos
meninos nus

Branco algodão
crescendo
corpos negros
na cacimba

O Lucala corre
confiante
indiferente à ponte que ignora

Verdes matas
Sangram vermelhas acácias
imbondeiros festejam
o minuto da flor anual

Na estrada
o rebanho alinha
pelo verde
verde capim

Adivinhados
caqui lacraus
de capacete giz
trazem a morte

Meninos
se embalam
em mães velhas
de varizes:

Rios azuis
da longa estrada

E é fevereiro
sardões as sol
Cassoalala

Eia Mucoso
tão cheio agora
Adivinhados
permanecem
lacraus caqui
capacetes giz

Não param as colheitas

Que razão seriam
fevereiro
acácias sangrando vermelho
verdes sisais
cantando o parto
da única flor?

Não param as colheitas!

(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

JOAQUIM FILIPE - IV BIENAL DE CORUCHE




Autor - Joaquim Filipe

Título - EUROPA

(marcadores s/ tela frontlit 160 x 77 cm)

Para ilustrar a magnífica obra de Joaquim Filipe em exposição


proponho Fernando Pessoa.

O DOS CASTELOS

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.


in MENSAGEM, Fernando Pessoa, 1934

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

INAUGURAÇÃO DA NOVA LIVRARIA BERTRAND




Nova BERTRAND no CASCAISSHOPING.

É central e enorme. Uma livraria que convida a ficar.

A sua abertura oficial aconteceu ontem pelas 19h.

Estive lá com um prazer que não é fácil de explicar.

Comecei por comprar um, depois outro e ainda outro dos livros do PEPETALA.

E PEPETELA é um senhor com a generosidade ingénua de uma criança.

É padrinho desta loja e deixou gravadas na parede desta casa

palavras que nos fazem sentir...


Obrigada pelo convite CP.









Todos os direitos reservados.



quinta-feira, 1 de outubro de 2009

CHEGARAM


...

se fossemos apenas veias e veios, artérias soltas
na mesma garganta
tudo seria mais simples na imensa pluralidade das
[palavras
indizíveis.

...

in Isabel Mendes Ferreira, "UM CORPO (SUB)EXPOSTO, INCM, 1983