quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Arquipélago dos dias - João Costa no papel de escritor.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Sobre José Antunes Ribeiro escreveu Maria Graciete Besse.
"PARA ALÉM DO VOO DA CORUJA, AS FRONTEIRAS DO ENIGMA
Ao José Antunes Ribeiro
Por mim falar-te-ei do esquecimento e da perda, de tantos sonhos arrastados no fluir desse rio de que somos secretamente cúmplices, soletrando a disforia, navegando memórias para sempre coladas à vertigem de um voo que é elogio da opacidade, forma visível de nomear a estreiteza do tempo.
Nas tuas palavras respiro a teoria do fogo, a projecção infinita do sangue, como sentir iluminado no momento de contabilizar ruínas e descobrir, no mais fundo do silêncio, o peso nocturno dos amigos mortos. Longe ou perto, o caminho da poesia inevitável. Longe ou perto, a voz da loucura mansa.
Era assim a aproximação do real, a sua negatividade devoradora. Por vezes, a ironia, a crueldade. Por vezes, a ternura espessa. Nas margens de uma revolução que foi cais de embarque para febres visionárias, a esperança a flutuar no imenso magma de pérfidas traições. Lisboa sem memória, apagada e frágil.
O teu rio atravessa os territórios da alma e fecunda o imenso mar da desordem, em cruzamentos de enigma para decifrar mais tarde. Por ele escorregam parcelas de identidade, emigrantes, retornados, canções de poetas exilados, sombras de jovens soldados para quem a morte se confunde com o perfume de sonhadas raparigas, grávidas talvez, a sorrir na eternidade das promessas, deusas de cabelos soltos ao vento, os gestos leves como ervas de amor, o álcool fugaz de todas as iniciações.
As sílabas do teu grito tecem pacientemente a urdidura das dúvidas, tecido manso de viagens para além do voo da coruja, seu riso de destinos entrelaçados na cruel passagem do tempo, de mãos dadas com a lua, a piar de lucidez como ninfa das trevas, incapaz de suportar a maldição da claridade.
O homem que se perde nas esquinas da cidade ignora certamente o murmúrio das águas que resvalam pelo medo, lágrimas litorais a conjurar a insolência das feridas, quando a explosão se anuncia por entre as palavras que dizem as múltiplas coagulações da violência, as pedras, os punhais, a lenta dissolução dos heróis em pátrias de autoridade e de conquista.
Mesmo se tudo passa como um imenso riso de fluidez obscura e ambígua, os poetas continuam a avançar pela caverna tenebrosa dos presságios, levando na mão uma tocha antiga que é chama capaz de iluminar a espessura perfeita do vazio. E assim tudo estremece na incerteza de um mundo vacilante, respeitando um ritual misterioso, inscrito em transparência nas raízes da voz, como imensa matriz cósmica, formuladora de infinitas possibilidades para o tormento de existir. À procura da totalidade. Escavando auroras por dentro da trama confusa do sentir. Na pista do esplendor.
De súbito, o relâmpago das palavras ilumina o horizonte. Alguém ousa a identificação dos contrários, na busca incessante de um percurso sem regresso nem destino, aprendizagem do caos em noites de amor e bruma.
A ave nocturna anuncia o rio do esquecimento, mas há namorados sentados à beira das ruínas, a construir enigmas com a sede das florestas junto ao mar. Entre a consciência e a noite, o corpo intacto, na travessia subtil das aparências.
O narrador confirma: "é sabido que só os poetas apontam o caminho"
Maria Graciete Besse
(Maria Graciete Besse é Professora Catedrática na Sorbonne, Paris IV, onde entre outras actividades, é responsável pela equipa de Estudos Lusófonos. Tem uma vasta obra publicada entre Poesia, Ficção e Ensaio.)
Também pode ler aqui, textos do Poeta José Antunes Ribeiro
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
BREVEMENTE

DIZ A NOITE
Noite Poética na Biblioteca Casa da Horta Quinta de Santa Clara.
Da alma do Poeta para a alma de quem o sente.
Ler. Ouvir. Dizer. Cantar.
É como o descerrar da aurora
depois da penumbra da noite.
Diz a noite.
Um poeta.
Um poema.
Um livro que contém todas as palavras.
O código do murmúrio das metáforas.
Senti-las como suas e dizer:
"a poesia nunca se abate ________ é a respiração frásica da alma"
Isabel Mendes Ferreira
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Em teia.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Há amigos assim.

Para celebrar o aniversário de um homem que respeito e amo numa amizade que me veio num fio de renda tecida a ouro, em filigrana ou mosaico do puzzle da vida. Sem si, o tempo não seria tão rico.
há amigos assim________________que nos são um pouco mais de alma quando a alma se deixa em repouso e se apenumbra. eles são a pétala de uma flor que se cuida sempre. há amigos que nos repousam o lado menos claro do coração.
Tu és um. raro. Parabéns PiresF_________________mil anos de vida...:)
quinta-feira, 29 de julho de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
outro dia. Babel S. Sebastião.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
um dia.




um dia.
Após uma espera lentíssima de desejo ardente de ler mais da Poeta Isabel Mendes Ferreira,mostrou-se. Vive numa montra requinta virada para a rua dos poetas. Lugar que nunca quis.Está mesmo aqui, perto da academia dos artistas, por onde passou um dia a Senhora e Dona das Palavras.Chegou. E o dia fez-se de luz. E o mar abriu a garganta. E as ondas ofereceram as suas/dela lágrimas.Está aqui para deleite de todos.
LIVRARIA BABEL CHIADO
Hoje, no PIANO
um dia a vida foi-nos foice no lentíssimo refazer do não expectável. um instante apenas e a humildade passou a terra húmida. desdobrada em espelhos de diminuir o tempo. esfacelada de água onde o gesto nunca chegou a excesso.um dia. que te entrego. como se fosses mais forte que a eternidade.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Dizer o quê... se os dias estão mordentes e as palavras são todas de imf.
segunda-feira, 14 de junho de 2010

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"as lágrimas estão todas na garganta do mar. hábil destino das
fontes.
agora sepulcro sagrado e inesgotável cântico. seco. árctico.
porém luz da língua.
pirâmide e estrela do mesmo gesto circular. ampla a vereda onde o sol
adormece. para ser febre nas tuas pálpebras."
Isabel Mendes Ferreira in As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar.
E, foto de Paula Viotti
O Guardador de Lágrimas, do Mestre José Rodrigues no Convento de Sam Payo.

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[…]
e éramos. duas lágrimas de cristal. lapidadas em curva. crivadas de retornos e de saudade. dois rios pródigos que se bebem no pescoço da memória nunca incendiada e sempre cal. duas pedras infacetadas como todo o êxtase no lado mais peregrino do circulo que nos é medida. cativa.
e somos. legíveis. sem pânico sem rede sem poeiras arbustivas. somos. a chave. a face. o extremo que é sempre extremo. o templo. o cálice e o claustro.
Isabel Mendes Ferreira in As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar.
E, foto de Paula Viotti
Lágrima suspensa, do Mestre José Rodrigues no Convento de Sam Payo.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar, IMF - Nas bancas a partir de 8 de Junho 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010
As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar, Isabel Mendes Ferreira, Editora Babel, Chancela de Arcádia, Lisboa, 2010

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É minha firme opinião que a Isabel Mendes Ferreira é, para além de uma excelente artista plástica - representada em várias colecções particulares, na Europa e nas américas, a nossa melhor Poeta. Já o disse, escrevi, redisse e rescrevi, que “ler Isabel Mendes Ferreira é como assistir ao descerrar de auroras, cantando e reinventado palavras de diferentes paladares por detrás dos fiapos da memória e da respiração das manhãs”, e continuarei a dizer e a escrever o mesmo, enquanto não aparecer no actual panorama literário português, alguém que altere esta convicção, formada desde o dia em que a descobri e de que não esqueço a forte impressão que senti ao lê-la: uma pedrada na “modorra” instalada.
Ninguém actualmente escreve como a Isabel Mendes Ferreira: nem com a profundidade nem com o estilo, nem com a qualidade que lhe advém do domínio absoluto da escrita e de um jogo de palavras soberbo.
Como se pode ler no posfácio, “O sentido ambíguo da sua escrita, converte-se no que o excede e onde ser o mesmo é ser outro de si (é outrar-se, como diz Fernando Pessoa), o que apela à desconstrução do discurso tradicional”.
Para mim, é pois, extremamente gratificante falar do novo livro de uma escritora e poeta, despojada de falsas crenças da unidade da consciência identitativa, de uma escritora que transporta os verbos que ainda não estão corroídos, pervertidos, subvertidos, gastos, e que com ela voltam fantásticos, imortais, castos e vestidos de denso sentir.
Este é um livro que me fascina, aprecio-lhe o cheiro das areias do deserto e a cor do cair da noite quantas vezes ruborizada de pudor e aureolada de luminosidade divina, um livro para ler e reler, uma instância de retemperação, um livro onde voltaremos amiúde e que será dado a conhecer ao mundo no inicio de Junho, pela Editora Babel, com chancela da Arcádia.
"As Lágrimas Estão Todas na Graganta do Mar", integra uma novíssima colecção de poesia, iniciada por David Mourão Ferreira e onde será o terceiro título da colecção.
terça-feira, 4 de maio de 2010
cinco da tarde e Lorca não está aqui...

Desenho a carvão de Mestre José Rodrigues
cinco da tarde e Lorca não está aqui.desertou. esfumou-se.ao invés a minha cozinha brilha brilho contínuo ironia de detergentes acidulada com lixivia eficaz espessa e aromática. nada de debussy nem de verdi. só os pratos no lugar o fogão limpo a mesa com cheiro a pedra e a iogurtes magros que a elegância é o elixir da vaidade. não sei cozinhar mas sei de cor as vitaminas dos legumes profilaticamente estou em dia. não sei organizar um refogado mas desenho nas facas um destino incerto de sal e fermento. dos outros dias aqueles que cabiam no bolso na saia recorto um seio alto as pernas esguias um ventre liso andrógino infecundo. esbelta solta e livre soltava os cabelos corria para o vale incerta evasiva assimétrica florbela sem fogos cadentes antígona com sílabas sáficas. inconsequente.cinco da tarde e sento-me sozinha a vigiar a solidão de massa e farinha.estou crescida.abro a gaveta das horas. arrumo dois anos no pote da pimenta verde e falo para as moscas. o peixe está congelado.bebo café.não sei passar a ferro.reforço as minhas rugas. engordo. penso no verão e lipoaspiro a secura dos cotovelos que já não mostro no areal. compro uma senha de solário e envio-me resmas de barcos de papel. cheira a branco na minha cozinha. é um diagnóstico de claras em castelo.são cinco da tarde e não comprei fiambre nem melancia. o elevador chia. os vizinhos também. o gato dorme. tudo está no seu lugar. na respectiva e milimétrica simetria de uma casa deserta. onde nem o pó entra. apenas a certeza congelada de que a vida não é solar. antes a cartilha de somar sonhos marítimos que dão para nenhuma praia. um lençol espremido na máquina um saco cheio de cascas de laranjas amargas um óleo espesso a escorrer para o chão. cinco da tarde e proust não me disfarça o cabelo branco. não sei ligar o forno. não quero ler as instruções.nem quero saber mesmo. eu gosto é de fazer nada. ficar assim à escuta dos ecos do meu corpo que anoitece depressa sem glória nem anestésicos. alimento-me de indolência mole doce abuso do sal das minhas lágrimas ouço o meu colestrol a gemer a inchar a aorta a arredondar as ancas a tornar mínimas as calças a implorar dois furos acima no cinto. cinco da tarde e não me revolto. sou puré de ameixas uma camisa desbotada manteiga fora de prazo tudo ao contrário menos a mão que segura o espelho. onde moras agora mãe? era tão cedo quando partiste. bem sei que já passava das cinco da tarde quando só e nua fechaste os olhos. para sempre. e eu não estava lá para chorar.chorar por mim por ti por nós que nos desencontrámos no maldito quarto de hospital onde uma estúpida e incisiva hiperplasia do útero te negou a vida e apoucou a minha. para sempre. e ainda agora não posso chorar tudo o que não soube dar-te. tu que magnanima e com dedos de leite me deste os olhos da vida como se nunca fosses abandonar-me. e agora a tua ausência é um pico na minha língua e doi. doi até ao limite. doi-me a falta do teu sorriso estelar e sei que nunca cresceste qual peter pan que sempre detestei mas que por ti fingi gostar e juntas nos levei a voar em ramos de cerejeira.brincámos ao faz de conta de mãe e filha como bichos de seda incapazes da transição natural. eu não voei e tu inesperadamente alteraste o curso de todos os rios. a meio caminho abriste o poço e logo me afundei no meu frágil casulo. sem teias nem janelas.são cinco da tarde e os meus olhos rasam a espuma de novembro e porque tu foste em novembro agora é sempre inverno.São cinco da tarde e nada é relevante. já mudei a água das túlipas dei a volta ao quarto do meu filho arrumei os legos fechei as asas do avião e dei-lhe cereais com mel. na minha cozinha anda um mozart adoentado a compor palavrões e eu digo-lhe tem juízo e dá-me antes uma receita contra as dores de alma. não te rias assim tão staccato alarve e genial irrita-me a tua música magnífica densa pura. escreves alto o que não posso dizer.um dicionário o meu filho quer um dicionário e já são cinco da tarde e a tua mão cheira a leite com chocolate e as letras estão com baunilha e a tua boca tem fluor e temos de ir ao pediatra. vamos já.deixa-me só barrar-me de competência o teu pai vai adorar. cinco da tarde e a minha vida é uma risca azul na tua camisola de marinheiro. e que interessa esta sinopse inábil de abelha de patas para o ar se amanhã regresso ao sítio inóspito do senso comum? gosto de não gostar.a música toca-me e lima-me as arestas e à noite imito o salto do tigre voando sobre um ninho de corpos nus e anónimos.de vez em quando a beleza surge em bemol nos teus olhos azuis e eu sorrio como se estivesse nas caraíbas e tu fosses marlon brando mas é só muito de vez em quando porque amanhece sempre cedo e de repente são cinco horas da tarde.cinco horas desta tarde de espinhos de lã e o amor é um vândalo vencido pela sede e pelo medo. um tumor excisado através da internet. sempre às cinco da tarde.
só uma pausa para seguir o vento
respirar respirar rente e dentro e fundo. na seiva nívea. e voar.
Ps. " ! Assim nesse dia des.canso e mato saudades (as saudades não se matam, são como o leite das mães ... )!" são. são peixes que rebrilham nas escamas da memória.
Isabel Mendes Ferreira








