terça-feira, 20 de outubro de 2009

POEMA XXXIII - ENTREGO-ME... IMF em 1982


XXXIII

entrego-me como se fora um livro
indesenhável. um livro de lábios
laranjas entumescidas no labor
dos teus-dentes dedos sempre leves.
sempre leves.
entrego-me bordada
de rigor ou
pontos de malmequer ou
estrelas dum céu de agosto ou
licor de garganta sempre
túrgida e aberta.
tocas-me uma valsa
de ondas largas onde me cortas
em cabelos de água
dizes que o meu corpo é de neve e
bebes dele à procura de nascente.
dentro do meu ventre tudo é turvo e túrgido.
úbere e largo. fruto do teu prazer
que antes de ser raíz foi barco e oceano.

PÁG. 47 in UM NOCTURNO DE BACH E UM RELÂMPAGO NO OLHAR,
de Isabel Mendes Ferreira, Bertrand, 1982