
Foto pessoal: Mosteiro de San Payo, Minho
MAGNIFICAT
multicolor, iluminando as concavidades do Infinito,
onde os Deuses que eram sombra, se vestem
de claridades vivas e carnais."
Teixeira de Pascoaes
a manhã começou a crescer. fluida. devagar. primeiro os beijo de António Jorge. as nuvens. as plantas. os dedos imóveis pousados na pele. na memória. o sangue ainda barco atracado no porto da saudade. o desejo incipiente. um pássaro na garganta. que tentava levantar voo. uma claridade imensa. de neve. fora da janela. a cidade a doer. como um cavalo ferido. um tiro nos olhos. andaimes de veludo que subiam para a voz obrigatoriamente calada. presa. vítima das portas fechadas. a as palavras de António Jorge.
o telefone. o salva-vidas contra a solidão.
Isa não sabe o número. quem se lembra de números. punhais. códigos de morte. quando o futuro é uma bolha de ácido enchendo a nuca de pontadas de medo. micro-memórias ardendo debaixo das veias. no vértice sinistro onde a carne é mais frágil e o silêncio um poço de asas rasgadas...?
a manhã desmanchava-se nos lençóis. na indolência das horas. o Rui vinha buscá-la para almoçar. um passeio ao longo do mar. pés na areia. pés no ar. o vestido rosa-doce. o cabelo solto. os lábios inundados de sorriso inocente. e os olhos de António Jorge ao lado do espelho.
Isa começou o ritual de ser mulher. secreta e desejada. inacessível porém. o banho. baptismo de sais e transparências. o perfume suave. nos pulsos. nas orelhas pequenas. indecisas borboletas voando à procura de um segredo de cerejas. o anel de ouro. finíssimo elo de um amor macerado. pisado pela solidão intransponível que ao longo dos meses se fora acumulando em mosto demasiado maduro. oleoso. e sentou-se no café que dava para a janela. boca aberta para a rua sempre fria. sempre igual. desde ontem. desde o princípio do medo. e ficou-se à espera do Rui. à espera dos olhos de António Jorge. súbito um galope de campainhas. um tremor de ervas. uma porta que insite em rugir. Isa vai abrir. é o Rui. pergunta-lhe se encontrou o António Jorge. ele não sabe quem é. claro. ninguém sabe quem é o homem que me persegue. a minha sombra recusa-se. pensa ela. mas como o tempo é um rio vamos que se faz tarde. é urgente sair. quebrar a teia cada vez mais forte que à sua volta é um novelo de desejo. um monstro enorme de língua fumegante trepando as coxas numa dança felina. demasiado angustiante.
saíram. sem perguntas. sem respostas para o terrível silêncio que Isa deixava cair a cada passo. num esquecimento total de lugar e momento. o restaurante escolhido ficava a dez metros do mar.
António Jorge não estava lá. nem era suposto estar. a não ser na imaginação ansiosa de Isa que não o conseguia esquecer. e as situações transformavam-se em pó de canela. extâses de limos e barcos que passavam. regatas de sonhos escuros. na sua boca mordente. águia à solta por dentro dos nervos de Isa que nos olhos claros de Rui encontrava a força marítima dos olhos de António Jorge.
algures na areia um homem agarrava uma mulher. dobrava-a pelas ancas num braço de metal fundido. António Jorge o homem vigoroso. e gritou até o mar não ser mais que um pobre afluente dos seus lábios inchados. mordidos pela fome de um homem fantasma no entanto colado às mãos de Isa que dominada por uma fé pagã cortara os pulsos ao desmaiar de prazer naquele enlace e se esquecera completamente do copo que o Rui enchera de vinho. maduro.
instalada a confusão no restaurante veio a conta. era um poema que suspenso de uma nuvem de incenso dizia__________estou contigo meu amor e nesse cálice que bebeste estava o meu sangue___________ Isa sorriu. era domingo de Páscoa. Aleluia! Aleluia!
Hosana... Hosana... meu amor... eis finalmente o meu corpo no teu corpo. Aleluia.
in "a mais loura de lisboa", magnificat, página 138, DIFEL, 1984,
de Isabel Mendes Ferreira