
Terá sido mais uma caminhante enamorada do vazio, o fosso anónimo a cobri-la, o alimento constituído de cenários iluminados por lanternas mágicas. Tudo é preferível à clarividência que dói mais do que as cinzas da ilusão.
Com o mesmo ímpeto com que revelara o lirismo às golfadas acerbando-o pelas cidades do mundo movida por artes de algo sem nome, haveria de partir de mãos vazias sem troféus, a miséria escondida sob uma capa de ouro, o guião por escrever memórias debicadas, ávidas de consolação.
No murmúrio da casca meio desfeita amputadora da essência, expurga nas linhas de transparência sagrada os castelos que constrói na provação do acreditar. Esfinge aparentemente decifrada revela sempre enigmas no atoleiro de sentires tão vividos que têm de ser contados na volta ao mundo da alma em voz dolente e salgada.
Solta de correntes, contenta-se em narrar o que vive, e se o narra é porque o vive nos prados inventados, páginas de sobriedade que aborrecem de morte repletas do gosto amargo das partidas no viver que é pão, no fermento que é sexo, a senda mais perigosa que a consome.
As noites e os dias são perfeitos até a música cessar, bastará o olhar a engolir a paixão até se esvair lentamente à serenidade, no fundo gravada na fibra íntima, as fendas onde se partilhara seladas com gotas de âmbar e sonha ao chegar ao fim da rota, sair do mundo com as mãos floridas.
Dedicado a Isabel Mendes Ferreira.